sábado, 11 de abril de 2009

Deus estava comigo

Depois de ouvir as piores coisas do mundo, de sentir morrer cada célula que compõe meu corpo fui dormir, pois já não havia motivo para permanecer acordado. Não havia mais o que esperar, eu ainda sentia o gosto amargo do veneno destilado em minha boca e aos poucos atingindo meu coração, que se fragmentava.

Verti uma lágrima de puro sangue e entendi que naquele momento as minhas incertezas tornavam-se certezas, que a minha procura havia acabado... tragicamente.

Parecia eu dormir sobre uma cama de pregos que perfuravam meu corpo culminando em dores inexplicáveis. Nunca me senti assim, mas como dizem sempre há uma primeira vez.

Acordei, era por volta das nove horas. Minha cabeça latejava, meus olhos comprimiam-se diante da claridade que entrava pela janela, mas uma vez chorei e não havia alegria em meu choro.

Repassei o que havia acontecido na noite anterior, e tentava identificar o que era real dentre os inúmeros acontecimentos que atormentaram meu sono. Passei algum tempo concentrado nessa tarefa.

Como de costume arrumei minha cama, me dirigi ao banheiro a fim de tomar um banho. Liguei o chuveiro, a água estava morna, fechei meus olhos e enquanto a água tocava meu corpo travava eu uma guerra interior (Sentimentos X Razão). Meu coração depois de tudo ainda queria pensar na dama que despedaçou meu coração, mas minha cabeça desembainhava sua espada e lutava veementemente quanto essa necessidade do meu coração.

Ainda aturdido saí de casa e me dirigi à praia do Arpoador. Procurava eu um pouco de sossego, e o contato com a natureza talvez me ajudasse. Praia do Arpoador, lugar lindo e sossegado, onde o mar beija a praia carinhosamente. É magnífico.

Logo que cheguei ao meu destino, fui atraído pelas águas claras do mar do Arpoador. Caminhei com passos apressados em direção a elas, quando já podia sentir as águas tocarem meus pés, reduzi minha ansiedade. E caminhei vagarosamente para dentro do mar. A confusão que antes havia na minha cabeça deu lugar a uma única certeza: a Morte.

Desejava eu ser engolido pelas águas, fazer parar a dor que me incomodava. Já com as águas no pescoço, tive a oportunidade de repensar tais medidas drásticas, entretanto, não mudei de idéia. Dei mais três passos, já me encontrava sob as águas e fui içado por uma força estranha. Acho que não existiam explicações lógicas para tal ocorrido. Tentei novamente, e novamente, e assim fiz dezenas de vezes e em todas elas o mar me negava o direito do afogamento. Fui arremessado pelas ondas na areia.

Chorei, mas desta vez não sabia por que chorava, somente necessitava chorar, limpar a alma das perturbações.

Senti um vento soprar em meu ouvido algumas palavras, e me peguei a olhar para as pedras que contam a história da praia do Arpoador. Calculei uns quinze metros de altura, altura considerável não acha? Não hesitei, subi as pedras e cheguei ao topo, lá pude sentir a brisa marítima acariciar minha face, e pude sentir uma ligação íntima com Deus. Sentia-me capaz de voar.

- TÊM UMA CRIANÇA NA ÁGUA, PRÓXIMO AS PEDRAS!!!

Ali, com certeza, não era um bom lugar para uma criança de aproximadamente sete anos estar. Neste ponto, as pedras dividem as praias e elas são o marco limite entre a praia do Arpoador e a praia do Diabo.

- CADÊ O SALVA-VIDAS???

Gritava um dos banhistas que se encontravam no alto da pedra. Todos estavam muito aflitos.

Percebi que pedra e água se digladiavam incessantemente, a água avançava sobre as pedras com uma fúria imensa enquanto as pedras se mantinham rígidas em sua defesa. Mais uma vez senti o vento murmurar em meu ouvido algumas palavras, desta vez pude compreendê-las.

- Vá! Não tema. Eu te acompanharei por toda a eternidade.

Eu tinha dúvidas, mas estava cheio de paz.

Olhei para o mar furioso próximo as pedras e avistei a menina sendo levada para lá. Eu sabia que ela não resistiria ao choque com as pedras. Depois de compreender a fragilidade da vida, do tanto que Deus nos proporciona e nós tolos, rejeitamos. Atirei-me ao mar.

Eu plainava no ar, me senti como um pássaro a dar vôos rasantes. Aproximava-me da água, mas não tinha medo do impacto entre a massa do meu corpo e água.

Minutos atrás queria eu me afogar, acabar com minhas dúvidas e incertezas. E agora, estava eu nadando vigorosamente quanto à correnteza para salvar a vida de um ser indefeso.

Deus estava comigo e tudo daria certo. Eu passara a ter está certeza.

PS.: A menina? Está viva e aprendeu a não se distanciar dos pais. Eu? Aprendi que não devo desejar a própria morte e é claro nem a morte de outrem.

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