Tomei por hábito vagar à noite, como um felino me esgueirava sobre os telhados das casas vizinhas. Não ia longe, mas tinha destino certo.
A brisa suave da noite tocava meu rosto. Por uma janela entreaberta via-se a face angélica do amor sendo acariciada pela luz emanada pela lua. Fitando-a, meus lábios se abriam em um sorriso. Mas não havia malícia em meu semblante, o que eu sentia era imaculado, verdadeiro e belo.
Não era a primeira vez que velava seu sono, mas era a primeira vez que sentia acelerar meu coração, que era possível escutá-lo bater tão forte.
O tempo havia passado rápido, a lua já se despedia e ia aos poucos dando lugar ao seu amado amante Sol. Não me detive, tornei à casa driblando os mesmos obstáculos da ida e com a mesma leveza e agilidade.
Até o presente momento nenhum contato havia sido feito. Todas as emoções que cresciam em meu peito juvenil eram mantidas em segredo, mas é claro que não pensava em mantê-las assim por muito tempo.
Não sabia o que fazer ou como agir. Era a primeira vez que amava. Eu amava!!!
Fui a papelaria, comprei cartões e neles haviam estampados, quase que em alto-relevo, corações, rosas e anjinhos. Eu havia tido uma idéia. Talvez não a melhor das idéias, mas eu precisava fazer algo, agir.
A noite se aproximava e eu já tinha pronto o meu primeiro cartão, a minha primeira mensagem para a minha Princesa.
Os dias são amenos, mas não me agrado deles
Como posso eu gostar dos momentos
Em que longe de ti me encontro
Eu prefiro as noites,
Porque mesmo em meio às trevas
Permitem que eu vislumbre a sua beleza
Como posso eu gostar dos momentos
Em que longe de ti me encontro
Eu prefiro as noites,
Porque mesmo em meio às trevas
Permitem que eu vislumbre a sua beleza
Queria eu que todos fossem dormir, que as horas se apressassem, para que pudesse eu correr pelos telhados alheios e me deparar à janela de Fernanda, assim chamava-se ela.
F – e – r – n – a – n – d - a, soletrei.
Ah, esqueci de mencionar. Pus na carta um Pós Scriptum e nele indicava um local, local este em que ela poderia deixar cartas para mim. E assim poderíamos ter uma comunicação bidirecional.
Tique-taque fazia o relógio na parede da sala. Eu contava os minutos.
Aos poucos todos iam seguindo o seu rumo, cada qual se preparando para dormir e ter bons sonhos, enquanto eu me preparava para sonhar acordado.
Enfim todos se recolheram, eu precisava ter certeza de que todos estavam dormindo realmente. Então aguardei mais uma hora até que pude sair. Dirigi-me ao último andar da casa. E como na noite anterior, andei pelos telhados até o meu destino.
Pousei no mesmo ponto da noite anterior. Estava de frente para a janela. Hoje, seu sono estava mais atribulado, ela rolava na cama. Então ainda sonolenta sentou-se à beira da cama e olhou pela janela. Não tenho certeza se ela me viu com exatidão, a ponto de me reconhecer, pois ainda estava sonolenta. Mas com certeza teria visto um vulto ágil sumir por cima de um telhado a sua frente.
Não fui embora, fiquei por perto em um ponto em que eu pudesse vê-la, mas que ela não pudesse me ver. Vi quando ela se retirou do quarto e aproveitando a oportunidade corri até a janela e pus a carta sobre a cama. Tornei ao murro e tratei de ficar escondido para poder observar a reação dela.
Ela já estava no quarto novamente, não havia percebido a carta até que se deitou sobre ela e pode senti-la roçar em suas costas. Ficou surpresa a encontrar o envelope. Olhou para fora procurando o emissor, mas não foi possível encontrá-lo. Então abriu o envelope, tomou em sua mão o cartão e o leu. Deixou escapar um sorriso ingênuo, como aquele que soltamos quando recebemos um abraço, inesperado, de um amigo.
Senti-me satisfeito com o sorriso dela, deu-me novo fôlego, nova vida. Senti que havia esperança. Fui para casa contente com o que tinha visto.
Dormi e tive excelentes sonhos. Eu estava amando, e era uma experiência inenarrável. Dormi como uma criança que ganha um presente muito cobiçado.
Durante o dia seguinte, por várias vezes tive vontade de ir à laje dela (local indicado no pós scriptum) para verificar se havia alguma carta para mim, mas não podia eu andar pelos telhados em plena luz do dia, era necessário aguardar a noite cair.
Enquanto aguardava comecei a preparar o próximo cartão.
Perdi-me pelos caminhos da vida
Mas meu lugar já encontrei
Se tivesse que fazer tudo de novo
Assim seria
Pois não há outro alguém
Por quem me perderia
Mas meu lugar já encontrei
Se tivesse que fazer tudo de novo
Assim seria
Pois não há outro alguém
Por quem me perderia
Dessa vez a noite parecia ter chegado mais rápida como se atendesse aos meus desejos. Quando já não se podia ouvir mais barulho na casa e na rua, saí.
Tomei os devidos cuidados para não ser visto e me aproximei da casa de Fernanda. Cuidadosamente desci sobre a laje da casa e como era de se esperar havia um bilhete. Eu havia levado uma lanterna comigo, era um acessório necessário a quem anda a noite.
O bilhete escrito com letras bem desenhadas e por mãos suaves e delicadas tinha como conteúdo as seguintes linhas.
Adorei o poema.
Quem é você? Eu gostaria de saber.
E porque deixar recado para você em cima da minha casa
Por acaso você é o homem-aranha?
Quem é você? Eu gostaria de saber.
E porque deixar recado para você em cima da minha casa
Por acaso você é o homem-aranha?
Eu pensei em responder as perguntas dela logo, já. Mas para isso eu teria que acrescentar mais algumas linhas a carta já escrita, o que não era possível, pois eu havia deixado em casa a caneta.
Achei engraçado à referência ao homem-aranha. Mas adorei saber que ela tinha gostado do meu poema, que era apenas um amontoado de palavras que tentavam expressar os meus sentimentos.
Aproveitando que já estava próximo da janela dela, e notando-a dormindo, deixei a minha segunda carta. Não resisti à proximidade e entrei pela janela, fiquei alguns instantes perto da cama dela, a observar seu rosto de expressões suaves. Senti-me imensamente feliz em poder estar tão próximo dela.
Vocês não sabem, mas ela estuda comigo, somos da mesma turma. Ela nunca percebeu que eu a amava. Eu sempre ficava a fitá-la. Seus olhos são lindos, cativantes. Ela é capaz de transformar as pessoas. Com sua voz doce e meiga, com seu jeitinho de princesinha, com seus mimos.
Ah, se ela soubesse que sou eu aquele que anônimo que deixa cartas/poemas para ela, quem sabe ela não me notava.
Ah, se ela soubesse que sou eu aquele que anônimo que deixa cartas/poemas para ela, quem sabe ela não me notava.
Era o terceiro dia. Até agora tudo tinha corrido bem. Acordei bem disposto, animado. O dia foi fluindo naturalmente. Eu a amava cada dia mais, e mais, e mais. O amor parecia crescer dentro do meu peito.
Precisava responder os questionamentos da Fernanda. E me prontifiquei a fazê-lo neste momento. Talvez, não devesse eu escrever uma poesia junto com as respostas. Talvez fosse melhor escrever poesia no dia seguinte. E assim foi.
A carta de hoje iria apenas com as respostas.
- Quem eu sou?
Ah, não sei se devo te contar. O importante é você saber que eu digo a verdade. Eu te amo! E acho mais prudente você só ficar sabendo daqui um tempo, mas garanto que não será um tempo muito grande.
- Se eu sou o homem-aranha?
Não, nem poderia. Eu não fui picado por nenhuma aranha alterada geneticamente.
- Por que deixar as cartas no telhado?
Porque é mais fácil de eu pegar, e assim você só me verá quando for a hora certa.
Eu te amo!
Ah, não sei se devo te contar. O importante é você saber que eu digo a verdade. Eu te amo! E acho mais prudente você só ficar sabendo daqui um tempo, mas garanto que não será um tempo muito grande.
- Se eu sou o homem-aranha?
Não, nem poderia. Eu não fui picado por nenhuma aranha alterada geneticamente.
- Por que deixar as cartas no telhado?
Porque é mais fácil de eu pegar, e assim você só me verá quando for a hora certa.
Eu te amo!
E assim foi por duas semanas, eu mandava poemas e ela me enchia de perguntas. Eu ficava feliz, pois pelo menos ela se interessava pelos meus sentimentos, tinha curiosidade sobre mim. E talvez me amasse também.
Na primeira segunda-feira depois dessas duas semanas, eu resolvi que deveria contar a ela quem eu era e me declarar pessoalmente. Preparei uma última carta. Mas está eu queria entregar em mãos.
Nós estudávamos de manhã. Era ruim acordar cedo, ainda mais para quem ia sempre dormir tarde, muito tarde. Mas era a melhor coisa do mundo poder ver a minha Princesa dormindo como um anjo.
Quando eu saia no portão, avistei na esquina a Fernanda. Era a minha oportunidade, eu só precisava andar rápido. Segui-a até próximo a escola. Quando faltavam poucos metros para o portão da escola eu a abordei, dando a carta na mão dela. Ela ficou confusa. Pois o envelope era igualzinho ao que ela recebia nas cartas à noite.
Ela parou e me olhou assustada. Tirou do envelope o cartão e leu:
Não conseguia mais guardar segredo dos meus sentimentos precisava te dizer quem eu sou e o que eu sinto assim frete a frente.
É verdade que te amo
Não brinco quando falo de amor
Sou de todo sincero
Amante fiel
Sou capaz de matar ou morrer
Pra conquistar o paraíso
Que só existe em teus braços
Eu te Amo, Fernanda
É verdade que te amo
Não brinco quando falo de amor
Sou de todo sincero
Amante fiel
Sou capaz de matar ou morrer
Pra conquistar o paraíso
Que só existe em teus braços
Eu te Amo, Fernanda
Ela ficou atordoada. Olhou-me novamente e não sabia o que fazer.
- Você?
Ela disse. E sem olhar para os lados foi para o meio da rua, olhei nos olhos e ela chorava. Eu não entendia, mas também não era hora para entender. Um caminhão se aproximava dela em velocidade relativamente alta. Não pensei duas vezes, entrei na frente do caminhão e a empurrei para longe das ruas, diretamente para a calçada. O motorista não conseguiu frear e eu não consegui sair da frente dele.
Graças a Deus não nenhuma fratura grave. Naquele momento eu estava bem protegido. Mas fui obrigado há ficar uma semana internado. Havia sido um atropelamento feio apesar de não ter me vitimado.
Esperei piamente, durante três dos sete dias, a visita de Fernanda, mas ela não foi. Então desisti de esperar, apesar de muito pensar nela. Quando acordado sua voz chegava aos meus ouvidos, quando dormindo sua face angélica vinha me procurar.
Ao quinto dia de internação ela apareceu. Disse que queria conversar comigo. Senti que não seriam boas as coisas que ela queria me dizer. Eu parecia pressentir.
Falamo-nos por longos trinta minutos, longos? Sim, longos. Ela me agradeceu por ter salvado a vida dela, que eu tinha sido muito corajoso, mas que ela não me amava e blá blá blá.
Eu me recuperei rápido do atropelamento, mas ainda amo essa muleka. Vai entender, né?
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